A esterilização e a eutanásia – entrevista com Jean Donaldson

A esterilização, a eutanásia, o abandono e a realidade Portuguesa. Não percam a conversa com Jean Donaldson.
A esterilização e a eutanásia são formas contrárias de lidar com os animais abandonados. Não percam a conversa com Jean Donaldson.

Jean Donaldson é uma especialista em treino e comportamento canino aclamada mundialmente e com obras que são leitura recomendada para todos os profissionais da área. 

Nesta parte da nossa conversa abordámos o tema dos animais abandonados e errantes e percebemos que a esterilização traz mais benefícios do que o do mero controlo populacional.

Sobre a esterilização, no final do seu livro “The Culture Clash”, recomenda que os donos esterilizem os seus cães. Quais são os fundamentos para esta recomendação?

Sim. Há pesquisas recentes que mostram que devido a problemas ortopédicos pode ser melhor esterilizar o cão depois de ele ter passado a fase de crescimento. Isto representa um problema para abrigos de cães e associações de apoio aos animais, onde os cães saudáveis estão a ser eutanasiados devido ao excesso de população. Estas associações têm o problema de, por um lado, ser melhor esterilizar o cão mais tarde por motivos de saúde, e por outro lado, ser melhor esterilizar o mais depressa possível, dado o grande número de cães abandonados.

Portanto, este é um problema muito difícil. A minha recomendação, no caso de ser um dono responsável que irá prevenir que o seu cão acasale, passa por perguntar ao respectivo veterinário qual a melhor altura para efectuar a esterilização.

Mas para as associações é difícil. É melhor esterilizar cedo para que menos cães morram, mesmo que esses cães acabem com uma lesão no joelho aos 5 anos de idade?

Esta é uma questão muito difícil. Preocupo-me quando vejo as pessoas afirmarem com leviandade que, por razões de saúde, a esterilização tem de ser feita mais tarde. Portanto, há que pensar neste assunto ponderadamente. Tenho pena das associações que têm de tomar estas decisões.

A esterilização e a eutanásia - entrevista com Jean Donaldson

Neste contexto das associações e dos animais errantes, gostaria de a ouvir sobre uma questão. Cerca de um terço da população portuguesa com mais de 15 anos tem um cão. Felizmente, os cuidados com os cães estão a melhorar, mas as taxas de abandono ainda são muito altas. Todos os anos, cerca de trinta mil cães são abandonados em Portugal. Na sua opinião, quais são as principais medidas que uma comunidade deve adoptar para diminuir o número de cães abandonados?

Essa é uma boa questão. Mais parques caninos, educação pública, treino para cães subsidiado… o governo poderia financiar aulas de treino ou aulas de educação para as pessoas, poderia também dar melhores fundos para as associações, por forma a que estas possam lançar campanhas de informação e de sensibilização. 

Há muitos abandonos em que as pessoas desistem porque não sabem se algo pode ser resolvido, se algo é normal. As pessoas não pensam antes de ir buscar um cão. Para resolver isto, as campanhas públicas podem ser muito úteis, uma vez que, através destas, pode-se explicar que ter um cão é um compromisso e que há muito trabalho envolvido. 

Apesar de ser recompensador, tem que se pensar nestas coisas antes de se ir buscar um cão. Poderia haver um anúncio de 20 segundos na TV. Isto são algumas coisas que eu acho que poderiam, ao nível da educação comunitária, ajudar a combater o problema do abandono. As associações têm financiamento público em Portugal?

Algumas têm financiamento público. Recentemente, as associações (centros ou canis) deixaram de poder eutanasiar cães em Portugal. O que tem levantado alguns problemas….

Então, o que fazem com a sobrepopulação de cães?

A eutanásia de cães foi proibida há algum tempo...

Então, mas o que acontece? Alojam os cães todos? 

É complicado, muitos não se consegue alojar, outros aloja-se sem condições…é um problema porque no plano moral, em teoria, a proibição da eutanásia é boa e faz todo o sentido. 0 problema é quando passamos para o plano da realidade. Hoje, o número de cães em canis está a crescer exponencialmente e toda a gente que trabalha em canis tem vindo a dizer que está a ser muito difícil lidar com esta situação. Uma prática que tem vindo a acontecer é o envio de cães que estão em canis em Portugal para alguns países do norte da Europa, onde o número de cães errantes é residual.

Sim, estou a ver. Essa situação também se vê aqui… na área da baía a situação de cães abandonados está bem controlada e não temos problemas. Alguns canis aqui não têm cães suficientes para a sua capacidade e, portanto, recebem cães de lugares onde há canis com excesso de população. Por isso, acho que esta solução é aceitável desde que seja garantido que os cães estão a ser adoptados.

Aquilo que defende é que o Estado poderia subsidiar, para além das associações, campanhas de prevenção relativamente ao abandono, actuando antes que o problema aconteça, certo?

Sim, é isso! Não é suficiente dizer que não se os pode eutanasiar, é preciso fazer com que parem de ser abandonados. 

Era sobre isto que falávamos no início da entrevista, a falta de conhecimento relativamente à forma de educar um cão leva a grandes problemas. Nós acreditamos que a educação é a solução principal para este problema. Percebe o que quero dizer?  

Sim, absolutamente! 

Concorda com uma solução em que, se uma pessoa quiser adoptar (ou comprar) um cão, terá de tirar um minicurso?

Sim, isso seria óptimo! Poderia ser de curta duração, compilado, para que não seja doloroso para as pessoas. Deviam tirar o curso antes de seleccionarem um cão, porque algumas pessoas poderiam, ao tirar o curso, pensar que talvez não seja boa ideia ter um cão.

Esta é uma das medidas que tomaram em Espanha.

É uma óptima ideia. Mas aqui (EUA) seria complicado. Aqui, quando se diz que alguém é obrigado a fazer alguma coisa, essa obrigação não é bem recebida pelas pessoas, pois sentem que é uma invasão à sua liberdade. Não se podia, sequer, dizer para as pessoas usarem uma máscara durante o covid…. 

Pois, é uma cultura diferente da europeia.

No Cão Nosso acreditamos que todos os cães devem ter uma oportunidade de uma vida feliz, com uma família que os estime e cuide, como tanto merecem.

Com as nossas Cartas que Ladram ajudamos a UPPA, uma associação de abrigo e defesa animal incrível, a dar a conhecer os patudos que procuram uma família. Aqui podem encontrar a Kaia. Esperamos que gostem e que partilhem para que haja menos animais em abrigos, canis e centros de recolha, e mais cães em casas que os saibam acolher como um membro da família.