
A origem desta raça é motivo de acesa discussão entre franceses e alemães, reivindicando cada um a sua criação. Na ficha técnica da raça, apresentamos a França como o país de origem, respeitando a consideração que é feita pela Federação Cinológica Internacional.
De facto, os ascendentes do Caniche, também conhecido como Poodle (nome derivado de um termo germânico que significava “saltar para a água”), residiam na Alemanha, tendo sido utilizados como cão de água. A tosquia que estamos habituados a ver nesta raça deriva do corte que era feito aos seus ancestrais, pensado para reduzir a resistência oferecida pela água, facilitando os seus movimentos e permitindo-lhes nadar mais rápido. Não por acaso, este corte conserva um volume grande de pêlo no peito, para proteger os órgãos vitais do frio, e um volume pequeno de pêlo na zona da garupa e das pernas traseiras, para facilitar os movimentos debaixo de água, ajudando-o a nadar.
Famosos artistas alemães, como Albrecht Dürer, desenharam os antepassados do caniche, mostrando as suas aptidões como cão de água.
Trazidos para França, estes antepassados foram cruzados com uma antiga raça gaulesa, que ainda existe e que também actua na água, o Barbet. Este cão, que é um ascendente de várias raças francesas, é um especialista na caça de aves aquáticas, nomeadamente de patos, onde actua como retriever, apanhando e trazendo a peça à mão do caçador. Ao ter herdado esta aptidão, chamou-se Caniche à raça que hoje conhecemos, uma vez que a palavra francesa cane (assim como canard) significa precisamente pato, sendo que o sufixo “che”, deriva da palavra francesa chien, que significa cão.
Rapidamente o Caniche se tornou num cão de companhia popular, devido ao seu temperamento afectuoso e à sua inteligência. O Caniche Padrão (ou Grande) foi sofrendo transformações para que se tornasse mais pequeno e mais adequado à vida no interior de casa, dando origem às três outras variantes: Médio, Miniatura e Toy. Estas variedades mais pequenas, para além de servirem como cão de companhia, serviam também para descobrir trufas, muito utilizadas na gastronomia europeia mais requintada.
O Rei Luís XV de França, a Rainha Maria Antonieta (mulher de Luís XVI), assim como grande parte das damas que viviam no Palácio de Versalhes, tinham e prezavam muito os seus Caniches. Oudry, célebre pintor francês do século XVIII, representou esta raça em muitos dos seus quadros.
Durante o século XIX, o caniche encantou os ingleses, que decidiram associar as quatro variantes de tamanho a diferentes raças. Mais tarde, nos anos cinquenta e sessenta do século XX, o Caniche Miniatura tornou-se no cão mais popular do mundo, tendo-se transformado numa espécie de acessório de moda em todas as grandes cidades ocidentais.
Uma interessante curiosidade histórica sobre o Caniche é o facto da sua capacidade para aprender diferentes truques e exercícios o ter levado a participar em espectáculos de circo, onde encantava toda a plateia.
Segundo a listagem feita por Stanley Coren, reconhecido escritor e psicólogo norte-americano, o Caniche é a segunda raça mais inteligente do mundo. Sendo muito sensíveis ao tom de voz das pessoas e, muito particularmente, do dono, é uma raça muito fácil de treinar, capaz de aprender truques que deixam qualquer pessoa impressionada.
Os Caniches são muito meigos e leais para com a sua família, sendo muito apegados ao dono, que seguem para todo o lado. Por esta razão reagem especialmente mal à solidão, podendo adoptar comportamentos pouco recomendáveis.
Sendo cães reservados, encarando as pessoas que lhes são alheias com desconfiança, podem constituir um bom cão de alarme, no entanto podem também ladrar em demasia, irritando todos aqueles que estão à sua volta, especialmente os seus vizinhos. Assim, é importante que sejam sociabilizados desde pequenos para que não desenvolvam uma postura agressiva e excessivamente possessiva.
Aos diferentes tamanhos do Caniche correspondem diferentes temperamentos. De uma forma geral, os de maior porte são mais tranquilos e sociáveis que os mais pequenos. O Caniche Grande é, de todos, o mais calmo, constituindo uma excelente companhia para as crianças e desenvolvendo facilmente uma boa relação com outros cães. O Caniche Médio, apesar de ser fácil de treinar, demonstra uma certa teimosia. No entanto, tem uma vantagem relativamente ao Grande, que é a de não necessitar de fazer tanto exercício físico e, por isso , de se adaptar melhor à vida num apartamento. Quanto aos Caniches Miniatura e Toy, sendo tão alegres e fáceis de treinar como os seus parentes maiores, podem demonstrar um certo nervosismo e, por consequência, ladram mais frequentemente.

Boye era o nome de um Caniche branco que viveu durante a Guerra Civil inglesa, no século XVII, e que ficou célebre por ter ajudado o Príncipe Rupert, sobrinho do Rei Charles I de Inglaterra e Comandante da cavalaria real, a vencer várias batalhas.
Boye foi oferecido ao Príncipe Rupert quando este se encontrava preso na fortaleza de Linz, durante a Guerra dos Trinta Anos, pelo embaixador inglês em Viena, o conde de Arundel, que considerou que uma companhia canina poderia ajudá-lo a enfrentar melhor aquela situação de encarceramento.
Durante a Guerra Civil inglesa, que opôs o Rei Charles I e seus apoiantes aos parlamentaristas, liderados por Cromwell, o Príncipe Rupert liderou de forma notável a cavalaria real, vencendo várias batalhas. O facto de Rupert se fazer sempre acompanhar por Boye levou à criação de muitas lendas e mitos à volta deste cão, que diziam que tinha poderes mágicos e que praticava actos de bruxaria.
Durante a batalha de Marston Moor, em 1644, após se ter libertado das amarras que o prendiam num local seguro para correr atrás do Príncipe, Boye acabaria por ser morto.
A cena da sua morte foi representada em xilogravuras (gravuras em madeira), onde aparece de cabeça para baixo. A fama deste caniche estendeu-se para além das fronteiras da Europa, ao ponto do Sultão otomano Murad IV ter pedido aos seus embaixadores para tentarem encontrar um cão igual.