
Durante o século XIX, em Inglaterra, os guardas florestais tinham uma grande dificuldade em apanhar os caçadores e os pescadores que ilegalmente entravam em propriedades privadas para caçar e pescar. Aliás, como está bem documentado, os ingleses enfrentavam naquela altura um grande problema com a caça e, principalmente, com a pesca ilegal, levando a grandes debates sobre a melhor forma de resolver esta questão.
Muitos perceberam que o desenvolvimento de um cão de guarda adequado para o efeito podia ser uma parte importante da solução para o problema. Foi, então, que criadores e grandes proprietários rurais, cansados de verem as suas terras invadidas, se lançaram na criação de um cão de guarda independente, robusto, ágil, veloz e que se deslocasse silenciosamente para surpreender os caçadores e pescadores ilegais. Todos perceberam que o Mastim Inglês (Mastiff, como dizem os ingleses) seria a base desta futura raça, uma vez que era um cão de guarda com provas dadas, apesar de não ter a resistência e velocidade pretendidas para esta função. Contudo, a dificuldade estava em escolher as outras raças, ou a outra raça, que deveriam, ou deveria, participar no cruzamento. Várias foram utilizadas, como o Grand Danois (ou Dogue Alemão) ou o Wolfhound, mas sem sucesso.
S. E. Moseley, um criador de Cocker Spaniel, de Mastiff (Mastim Inglês) e de Bloodhound, empenhou-se em criar a raça certa. Chegou à “fórmula” ideal quando cruzou o Mastim Inglês com o Bulldog Inglês, que na altura era uma raça diferente daquela que hoje conhecemos. O equilíbrio que Moseley encontrou para a criação do Bullmastiff assentou numa combinação genética de 60% de Mastim Inglês e de 40% de Bulldog Inglês. O resultado foi aquele que hoje conhecemos: uma raça forte, veloz e corajosa, capaz de perseguir os saqueadores, derrubá-los e mantê-los presos até à chegada do dono.
Outra característica muito importante do Bullmastiff e que ajudou bastante os guardas florestais a apanharem os caçadores e pescadores ilegais, é a sua capacidade para vigiar durante a noite, graças ao seu pêlo fulvo, ou tigrado, e à “máscara” preta que tem na cara, permitindo-lhe ficar camuflado por entre a vegetação e, assim, passar despercebido.
O Bullmastiff foi desenvolvido não para atacar o intruso mas para subjugá-lo até que o guarda chegasse. Por incrível que pareça, a partir do momento em que eram apanhados e segurados até à chegada do guarda, não existe um único caso conhecido de algum destes intrusos ter conseguido escapar destes cães.
O sucesso do Bullmastiff foi de tal ordem que o número de caçadores e pescadores ilegais diminuiu significativamente, o que fez com que, por consequência, a sua actividade original perdesse alguma utilidade. Mas esta raça versátil havia rapidamente de assumir outras funções, designadamente como cão de caça maior, sendo muito apreciada pelos grandes proprietários rurais para os acompanharem nas suas caçadas.
Ficou célebre o episódio ocorrido em 1901, numa exposição de cães em Inglaterra, onde um senhor, chamado Burton de Thorneywood Kennels, desafiou alguém do público a tentar fugir de um Bullmastiff açaimado. Quem conseguisse escapar ganhava 1 pound, o que naquela altura era bastante dinheiro. Confiante, um homem que tinha experiência no relacionamento com cães aceitou o desafio. Tendo lhe sido dada vantagem à partida, para que tivesse mais hipóteses de escapar, este homem viria a arrepender-se de ter aceitado o desafio, uma vez que foi humilhado publicamente ao ser derrubado três vezes perante uma multidão entusiasmada com as capacidades do Bullmastiff.
Só em 1924, a raça foi reconhecida pelo The Kennel Club, dado o facto de serem necessárias três gerações de Bullmastiffs puros para que a raça pudesse ser oficialmente reconhecida pelo principal clube de canicultura britânico.
Desde então, o sucesso do Bullmastiff estendeu-se além-fronteiras, designadamente aos Estados Unidos. O presidente da The American Bullmastiff Association, Peter Aczel, defende que parte do sucesso da raça se deve a nunca fazer aquilo a que os americanos chamam “over-react”, isto é, perante uma determinada ameaça nunca reage desproporcionalmente.
Algumas forças policiais e militares têm usado o Bullmastiff para os auxiliar em certas tarefas. Mas, actualmente, o Bullmastiff é tido essencialmente como cão de companhia, sendo um óptimo cão de família.
Um cão de guarda nato, o Bullmastiff destaca-se por ser muito forte, resistente, confiante e corajoso. O seu apuradíssimo instinto protector e territorial, faz com que não aceite a presença de estranhos, sejam pessoas ou cães. Por esta razão, para se desenvolver como um cão equilibrado, é fundamental que seja socializado desde tenra idade com diferentes pessoas, animais e em vários tipos de ambiente.
Mesmo para cão de guarda, o Bullmastiff tem uma capacidade excepcional de distinguir o que constitui, ou não, uma ameaça, sendo capaz de ler as expressões corporais e faciais de forma quase infalível. Percebem facilmente, por isso, quando os seus donos estão na disposição de brincar ou quando estão chateados com alguma coisa.
Relativamente à sua família, o Bullmastiff é muito afectuoso e tende a criar uma ligação muito forte com os seus donos, havendo o risco de se criar uma dependência excessiva. De facto, fazer parte das actividades da família é a melhor coisa que podem dar a esta raça, que adora o contacto com crianças. Naturalmente, a interacção entre os mais novos e o Bullmastiff deve ser controlada, uma vez que a sua força e tamanho podem, sem intenção, assusta-los ou magoá-los.
Educar um exemplar desta raça não é para qualquer dono, não sendo a escolha ideal para pessoas sem experiência com cães. É preciso saber impor limites de forma consistente e fazer respeitar os comandos que se quer dar, não cedendo à sua teimosia e personalidade forte. No entanto, a firmeza que se exige ao dono não pode nunca ser confundida com uma educação baseada na agressividade, dado que esse tipo de abordagem apenas fará o cão ficar mais medroso, confuso e menos confiante, o que por consequência levá-lo-á a ser mais imprevisível e potencialmente mais perigoso.
O facto de ser um cão calmo dentro de casa permite-lhe adaptar-se bem à vida num apartamento. No entanto, para que esta adaptação se concretize é imprescindível proporcionar-lhe bons passeios, onde se possa exercitar livremente.
Finalmente, interessa referir que o Bullmastiff se baba bastante, principalmente após beber, comer e fazer exercício físico. Nos dias em que está calor ou quando está mais stressado, também saliva muito. Assim sendo, a baba não pode constituir um problema para os seus donos.

Foi no século XIX que o Bullmastiff recebeu a alcunha de “The Gamekeepers Night Dog” (O Guardião e Caçador da Noite), devido à sua performance em surpreender, apanhar e segurar os ladrões durante a noite.