
Durante o século XVII, mais propriamente a partir de 1652, com a chegada do administrador colonial holandês, Jan van Riebeeck, muitos colonos europeus, nomeadamente holandeses, britânicos, dinamarqueses e franceses, assentaram a sua vida no território que hoje designamos por África do Sul. Estes colonos trouxeram consigo cães de tipo molosso, caracterizados pelo seu grande porte, força e tenacidade, essenciais para combater as tribos nativas hostis e os animais selvagens daquele território, como leopardos e hienas. O próprio Jan van Riebeeck trouxe consigo um Bullenbeisser, uma raça alemã extinta, também conhecida como Bulldog Alemão, que era utilizada para a caça grossa e para o Bull-baiting (combate entre cães e touros).
Estes cães trazidos da Europa foram sendo cruzados com cães nativos africanos, como, por exemplo, o Cão Africanis.
Já no século XIX, houve um crescimento do número de colonos na África do Sul, principalmente britânicos e franceses, que trouxeram algumas raças, como o Bulldog e o Dogue Alemão, cruzando-as com os cães que já estavam estabelecidos naquele território. No século XX, a importação de Bullmastiffs para guardarem as minas de exploração de diamantes veio contribuir para o enriquecimento do cruzamento entre cães de origem europeia e africana.
A história do Boerboel é indissociável da história dos bôers, nome dado aos referidos colonos europeus que criaram raízes em território sul-africano e namibiano e que partilhavam o protestantismo entre si. O idioma falado pelos bôers é o africâner (ou afrikaans), que deriva do holandês e, embora de uma forma relativamente limitada, de idiomas indígenas africanos. A palavra “boêr” significa, em africâner, “proprietário de uma herdade” ou “fazendeiro”. Já a palavra “boel” é uma adaptação da palavra inglesa “bull”, utilizada para baptizar várias raças, a começar pelo Bulldog. Desta forma, boerboel significa, entre outras possíveis traduções, “cão de quinta”.
Os séculos de selecção natural num habitat difícil, com temperaturas altas e grandes predadores, onde só os mais fortes e resistentes sobrevivem, tiveram um papel determinante no apuramento da raça. Uma vez que a sua criação se desenrolava em quintas, muitas das quais com uma grande distância entre si, os exemplares de cada região tinham as suas particularidades, factor que ainda hoje é observável.
Apenas em 1993, foi criada uma associação para definir um estalão para o Boerboel, baptizada como SABBS (South African Boerboel Breeders Society). A partir daqui os criadores puderam seguir um conjunto de atributos que distinguem o Boerboel e que a tornam na única raça desenvolvida na África do Sul com a finalidade de guardar propriedades.
A inteligência e a capacidade de trabalho do Boerboel fazem com que tenha uma grande facilidade de aprendizagem, o que não significa que seja uma raça indicada para qualquer pessoa, uma vez que o seu porte físico aliado a uma personalidade forte exige que o seu dono tenha experiência ao nível da educação e do treino canino. É importante que desde cachorros aprendam a respeitar as regras traçadas pelos seus donos e socializem com outros cães, por forma a não se tornarem desconfiados e agressivos.
São excepcionais cães de guarda, sendo capazes de proteger grandes propriedades. Esta capacidade tornou o Boerboel no principal cão de guarda da África do Sul e tem levado a que seja cada vez mais procurado nos quatro cantos do mundo.
O facto de ter sido criado como cão de guarda, não invalida que seja muito carinhoso e brincalhão com a sua família, inclusivamente com as crianças, com quem cria laços fortes, apesar de esta relação dever ser, como acontece com qualquer cão, supervisionada. O instinto protector do Boerboel vem ao de cima quando se trata de proteger a sua família, com quem gosta sempre de estar, não tolerando ficar longe desta por muito tempo. Caso fique muitas horas sozinho, poderá desenvolver problemas comportamentais.
Esta raça é bastante activa, precisando, por consequência, de praticar exercício físico regularmente. Este facto, conjuntamente com o seu grande porte, faz com que não seja a raça certa para viver num apartamento, excepto se for um apartamento de dimensões consideráveis e/ou com um grande terraço. O ideal será viver numa quinta (ou num quintal) e ter a possibilidade de dormir dentro de casa, por forma a poder ficar mais perto dos seus donos.

Embora cada vez mais padronizada e popular no seu país e em todo o mundo, o Boerboel ainda não é reconhecido pelos principais clubes de canicultura internacionais, entre os quais a FCI (Fédération Cynologique Internationale). A excepção foi o reconhecimento do AKC (American Kennel Club), em 2010. Provavelmente, será uma questão de tempo até outros grandes clubes anunciarem o seu reconhecimento.